“Bolsonaro falou que é melhor deixar a presidência da Câmara com outro partido”, diz presidente do PSL

Presidente do PSL, o empresário e bacharel em direito Luciano Bivar conseguiu se eleger deputado federal por Pernambuco para a próxima legislatura com mais de 117 mil votos. Ele é um dos 52 com os quais a legenda – praticamente desconhecida da população antes da filiação de Jair Bolsonaro – contará na Câmara dos Deputados a partir de fevereiro do ano que vem. Bivar afirma que poderia pleitear a presidência da Casa diante da nova realidade da sigla que, segundo ele, deverá com mais 12 deputados federais, mas recuou após uma ligação de Bolsonaro. Ele diz, também, que Bolsonaro conseguirá governar com o apoio do Congresso porque ninguém ficará contra os interesses do Brasil e conta alguns planos para estruturar o partido. “Não pode acontecer com o PSL o mesmo que aconteceu com o PRN (partido de Fernando Collor quando se elegeu presidente em 1989)”. A seguir os principais trechos da entrevista.

ÉPOCA – Qual será o papel do PSL enquanto partido durante o governo de Jair Bolsonaro?

Luciano Bivar – Desde o início houve coincidência do pensamento do Bolsonaro com o PSL. Isso não vai deixar de acontecer. Ele (Bolsonaro) foi o grande responsável pelo engrandecimento do partido, mas o PSL tem a sua alma. O grande desafio nosso agora é manter o PSL com essa linha ideológica que sempre teve, de economia de livre mercado, respeito à propriedade privada e respeito às instituições democráticas. A grande diferença do liberalismo para o socialismo é que o nosso (dos liberais) ponto de partida é a igualdade de oportunidades, enquanto os socialistas querem igualdade de resultados. É difícil obter resultados iguais quando as pessoas são diferentes: cada uma é uma. A igualdade de resultados vai desestimular quem tem mais talento, quem trabalha mais, quem produz melhor. Precisamos passar para os deputados novos que estão entrando o que é o liberalismo. Formar um partido genuinamente liberal.

ÉPOCA – Quantos deputados o PSL espera conseguir além dos 52 que elegeu? (Por causa da cláusula de desempenho, não atingida por alguns partidos, parlamentares poderão mudar de partido sem nenhuma punição)

Luciano Bivar – Acredito que pelo menos 12 deputados deverão mudar para o PSL. Não quero cooptar ninguém. Se quiserem, venham sabendo da nossa linha ideológica. Queremos uma unidade de pensamento.

ÉPOCA – Em 1989, Fernando Collor de Melo se elegeu presidente da República e o PRN conseguiu uma importante bancada. No entanto, logo depois o partido desapareceu. O que fazer para que o PSL não seja o novo PRN?

Luciano Bivar – É exatamente essa a nossa meta. O PRN não tinha linha programática. Só tinha um líder. Nosso partido vai buscar isso independente de o Bolsonaro estar no partido daqui a quatro anos ou não. Ele mesmo fala que não quer a reeleição. A gente não pode fulanizar o partido. O partido é uma união de ideias, de uma ideologia. Esse é que será o grande desafio. Por isso, para mim, (voltar à presidência do PSL) é muito mais importante que qualquer função que eu pudesse ter no governo. Acho que chegou o momento de estruturar o partido.

ÉPOCA – Já há planos do PSL para as eleições municipais?

Luciano Bivar – Há centenas de prefeitos em todo o Brasil já querendo migrar para o PSL. Vamos fazer uma reunião, se possível na segunda quinzena de novembro, para conversarmos sobre isso. Que venham pessoas nesses princípios que Bolsonaro falou por aí. Éticos e liberais.

ÉPOCA – O senhor considera o PSL um partido de direita?

Luciano Bivar – É um partido liberal. Claro que quando se faz uma diversificação no mundo atual, se fala em esquerda, que são os socialistas, e direita, os não socialistas. Não há mais espaço para “centrão”.

ÉPOCA – No ano passado, houve a saída de integrantes do movimento Livres do PSL com a entrada de Jair Bolsonaro no partido. Isso causou mudança na linha ideológica no partido?

Luciano Bivar – Quem criou o Livres fui eu. Vieram várias pessoas. Íamos ultrapassar a cláusula de barreira (mecanismo instituído na última reforma política que coloca um desempenho mínimo que os partidos têm de ter na votação para ter acesso ao fundo partidário e o eleitoral e horário de propaganda na TV). Foi quando surgiu o Bolsonaro. Perguntei a eles se migrariam ou não ao PSL. Isso aconteceu em janeiro. Eles disseram para deixar para decidir no final de fevereiro. Eu respondi que não me interessava, teria de ser naquele momento. Estavam Kim Kataguiri (líder do MBL eleito deputado federal pelo DEM de São Paulo), Pedro Cunha Lima (deputado federal pelo PSDB da Paraíba), Daniel Coelho (deputado federal pelo PPS de Pernambuco), vários deputados. Em março, Bolsonaro ingressou oficialmente no PSL. Esse pessoal do movimento Livres é que não soube o que é ser “livres”. Para ser livre, tem que respeitar a liberdade dos costumes de quem quer que seja. Se o sujeito é favorável ao aborto ou não, tem que entender quem é a favor ou contra. Eles foram muito presos pelo preconceito. O liberalismo não prega isso. A saída deles não abala em nada. A linha ideológica do partido continua a mesma.

ÉPOCA – O senhor pretende se candidatar à presidência da Câmara?

Luciano Bivar – Primeiro, houve aceitação muito grande não só dentro do partido, mas em outras legendas. Como estou na Câmara desde 1998, tenho muitos amigos em todos os partidos. Eu achava que seria muito interessante e que caberia ao PSL, maior partido do governo na Câmara, indicar. Mas Bolsonaro ligou para mim e disse: “Luciano, parece que somos autoritários se quisermos isso. Melhor deixar a presidência com outro partido”. Eu aceitei e abri mão de disputar.

ÉPOCA – O senhor acredita que o PSL deve apoiar quem na disputa pela presidência da Câmara?

Luciano Bivar – O que Bolsonaro falou foi só isso. A voz dele vai pesar mais que a minha, presidente do partido. Por mais que ele diga que não (vai se envolver na eleição para a presidência da Câmara), eu vou consultá-lo.

ÉPOCA – O senhor acredita que ele dará um direcionamento?

Luciano Bivar – Sim, ele vai dar um direcionamento. E eu vou falar com a bancada. Ou ele mesmo vem comigo para falar com a bancada sobre quem é o melhor. Talvez ele não queira se expor, mas vamos saber quais as intenções dele.

ÉPOCA – Quais partidos farão parte do núcleo duro de apoio ao governo Bolsonaro na Câmara?

Luciano Bivar – Conversei com (Gilberto) Kassab (presidente do PSD) e foi muito simpático. O Valdemar Costa Neto (cacique do PR), também muito simpático. Vou conversar com Marcos Pereira (presidente do PRB) na quarta-feira (7), mas já falei por telefone e ele foi muito simpático sobre o apoio também. Conversei com o Podemos. Acho que a dúvida sobre governabilidade, que era a grande interrogação na campanha, está superada. Ninguém vai votar contra os interesses do Brasil, contra as reformas.

ÉPOCA – O senhor acredita ser possível aprovar a reforma da Previdência ainda em 2018?

Luciano Bivar – Vai depender muito do final de ano. Há um desinteresse muito grande daqueles que perderam a eleição e já não estão mais indo a Brasília. Aqueles que ganharam estão festejando. A dificuldade de quorum será muito grande. Paulo Guedes (futuro ministro da Economia) conversou comigo e disse: “Luciano, vamos ver se damos largada nisso (reforma da Previdência) já neste ano”. Disse que tem nosso apoio.

ÉPOCA – Tanto o Jair Bolsonaro quanto o futuro ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, falaram em manter negociações diretamente com os deputados. Os dois propagam que o governo tem apoio das frentes parlamentares evangélica, agropecuária, da segurança pública. É possível governar dessa maneira e sem articular com os dirigentes de partido?

Luciano Bivar – Todos os deputados que estão em frentes parlamentares estão filiados a alguma agremiação. É lógico, por mais que se converse individualmente, tem o presidente do partido e você tem que conversar com ele. Tem que transmitir a ele que também estamos nesse caminho. Não há razão para haver dissidentes. É imprescindível que se fale também com os dirigentes partidários.

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