DE DENTISTA A INCORPORADOR: O BILIONÁRIO BRASILEIRO POR TRÁS DO MAIOR EDIFÍCIO RESIDENCIAL DA AMÉRICA LATINA

Em 2014, dois anos depois que a Forbes chegou ao Brasil, Geninho Thomé estreou no ranking dos bilionários brasileiros. Na época, com patrimônio estimado em R$ 1,16 bilhão, o paranaense se destacava por conta de sua profissão. Não, Thomé não era banqueiro, herdeiro ou CEO de uma grande companhia de capital aberto, mas o único dentista a figurar na lista.

A fonte da fortuna era a Neodent, empresa de implantes dentários criada em 1993 ao lado da ex-mulher, a também dentista Clemilda de Paula Thomé, e recém-adquirida pela empresa suíça Straumann. “Quando me formei em odontologia pela Universidade Federal de Santa Catarina, em 1979, a tecnologia no Brasil ainda estava muito atrasada. Ninguém colocava implantes porque era um produto importado e caríssimo”, relembra. Após anos de estudo, Thomé deu vazão ao seu lado empreendedor e fundou a empresa, com o intuito de difundir a implantodontia em solo nacional e torná-la mais acessível aos brasileiros. Segundo ele, seu plano foi muito além.

Mais do que disseminar a técnica no Brasil, Thomé começou a atrair olhares internacionais ao longo dos anos, o que fez com que, em 2012, a Straumann, líder global em implantes dentários, fizesse uma oferta irrecusável. Por R$ 549 milhões, o grupo comprou 49% da Neodent. Dois anos mais tarde, arrematou os 51% restantes do negócio por R$ 680 milhões. “A proposta era muito boa, então eu aceitei. Como sempre tive espírito empreendedor, aproveitei o momento. Mas acho que eu devia ter guardado um pouco das ações da empresa para mim”, brinca.

Mas, a falta de participação acionária na Neodent não atrapalhou, de forma alguma, sua trajetória. Thomé segue bilionário, com um patrimônio pessoal de R$ 1, 2 bilhão e, como se não bastasse, é destaque novamente na Forbes como um dos nomes por trás do maior edifício residencial da América Latina, o Yachthouse. Localizado em Balneário Camboriú, Santa Catarina, o segundo metro quadrado litorâneo mais caro do Brasil – atrás apenas de Ipanema, no Rio de Janeiro – o prédio tem 81 andares e 281 metros de altura.

Em construção desde 2015, o Yachthouse já atraiu muita atenção da mídia por ser o mais novo sonho de consumo de algumas celebridades. Neymar e Luan Santana, por exemplo, foram apontados como possíveis compradores do empreendimento. Os apartamentos tiveram as primeiras unidades vendidas por R$ 2,3 milhões. Agora, os preços já estão na faixa de R$ 4,5 milhões. “Quem comprou antes teve sorte”, diz Thomé com bom humor.

O bilionário não imaginava que sua carreira se encaminharia para o setor imobiliário, mas hoje diz entender a mudança. “Filosoficamente, esse ramo não difere muito daquilo que eu já estava fazendo. Eu construía novos sorrisos, agora construo um espaço para que as famílias sejam felizes. De qualquer forma, vendo sonhos”, explica. De implantes dentários a edifícios de quase 300 metros de altura, a transição de carreira aconteceu já aos 60 anos, em um final de semana comum.

A VIDA PRÉ-YACHTHOUSE

Antes de vender o total da sua participação na Neodent – a exemplo da ex-mulher, que também vendeu sua parte – Thomé criou uma divisão chamada Neoortho, uma área focada na produção de próteses ortopédicas, que ficou de fora da operação. Por isso, ele ainda mantém um pé no setor da saúde. “Me mexo de todas as formas, mas sempre acabo voltando para a área médica”, diz, entre risadas. Mas, mesmo com o controle de 95% da empresa, a vida se tornou muito mais pacata quando a venda da Neodent se concretizou. Aos 60 anos, o bilionário até considerava se aposentar.

“Cresci em Santa Helena, interior do Paraná, junto de mais 11 irmãos. Era uma vida humilde e minha mãe sempre falava: ‘Meu filho, um dia você vai ter que responder pelas horas que ficar sem trabalhar’. Eu pensava que isso era um absurdo. Não temos direito nem de curtir?”, pergunta. No entanto, foi durante um momento de lazer, enquanto jogava golfe no final de semana, que a relação com o mercado imobiliário começou a se desenhar.

“Encontrei no clube um amigo que era corretor. Na hora, ele me apresentou um projeto de um prédio em Santa Catarina que estava todo esquematizado, mas que não podia ser finalizado por problemas da construtora responsável”, lembra. “Coincidentemente, o dono do terreno jogava tênis comigo e era meu colega. Quando comecei a falar sobre o assunto, ele logo disse que seria um prazer se eu assumisse a construção do edifício.” Como uma pessoa que não teme desafios, Thomé comprou a área e começou sua trajetória em um novo setor.

Até então, o projeto inicial previa 58 andares, mas a construção ganhou novos contornos quando Thomé se deu conta de que aquele poderia ser o edifício residencial mais alto da América Latina. O empreendimento – que ganhou a assinatura da Pininfarina, estúdio de design italiano responsável pelos projetos da Ferrari e da Lamborghini – está a cargo da Yachthouse Incorporadora, cuja composição societária pertence, em partes iguais, à L&A Participações, de Alcino Pasqualotto Neto, e Lavoro Administração de Bens e Participações, de Geninho Thomé.

Com uma vista 360 graus do mar e da Mata Atlântica, o Yachthouse foi construído, estrategicamente, em Balneário Camboriú. “É uma área de valorização importantíssima, que gera um nicho de empreendimento de alta qualidade. Eu percebi isso e mergulhei de cabeça”, explica. Conhecida como a “Miami brasileira”, a cidade turística no litoral de Santa Catarina também é uma paixão de férias do executivo. “A região é maravilhosa. Além de linda, nunca ouvi falar de assalto à mão armada. Você sai de casa para passear com a maior tranquilidade. Deus foi generoso com esse litoral.”

Com previsão de lançamento para junho de 2022, o empreendimento sofreu um leve atraso na construção por conta da pandemia. “Imagina uma película de vidro para um prédio de 81 andares ao lado do mar? Fomos buscar essa tecnologia em Dubai e no Panamá”, destaca. Mas, em função dos atrasos nas importações por conta do fechamento das fronteiras, esse material demorou um pouco mais para chegar. Para ele, a frase que mais define o momento é “a pressa é inimiga da perfeição”. “Se não fosse por essa tecnologia, o prédio não ia chegar lá em cima nunca. Ia cair antes”, brinca.

Embora a crise sanitária tenha impactado negativamente alguns planejamentos, não se pode dizer o mesmo sobre o saldo de vendas do setor de imóveis de alto padrão. Só no primeiro trimestre de 2021, o desempenho cresceu 30%. No caso do Yachthouse, onde 90% das unidades já foram vendidas, já foi alcançado mais de R$ 1 bilhão em VGV global, enquanto o VGV da GT Company, com seus mais de 15 projetos, representa mais de R$ 10 bilhões.

Próximo dos 70 anos e à frente de negócios com perfis tão diferentes, Thomé brinca estar feliz por não ter se aposentado. “O segredo do sucesso é a energia, e eu tenho de sobra”, destaca. Quando está estressado com algo, o empresário tem uma solução muito simples: jogar golfe. Enquanto conversa com a Forbes, de seu escritório, podemos ver, ao fundo, um pequeno estúdio de mini golfe, com piso de grama sintética e tacos à disposição. “Quando algo me irrita, é só ir ali no canto e bater em umas 50 bolas”, diz.

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