SOUTH SUMMIT: FEIRA DEIXA LEGADO DE COOPERAÇÃO, INOVAÇÃO E RESGATE DO CAIS MAUÁ

O South Summit durou apenas três dias, mas deverá deixar um legado duradouro para a Capital e o Rio Grande do Sul. Na avaliação de gestores públicos, empresários, acadêmicos e especialistas consultados por GZH, o evento encerrado na tarde desta sexta-feira (6), após superar expectativas e reunir mais de 20 mil pessoas às margens do Guaíba, é visto como um marco na busca por um novo caminho de desenvolvimento econômico e social para o Estado. Os legados do encontro que busca aproximar startups, investidores e empresas incluem um novo patamar de cooperação entre os setores público e privado, a consolidação de uma cultura local de inovação, a recolocação de Porto Alegre como centro de relevância internacional e a consagração do Cais Mauá como espaço de atividades e convívio.

Uma das heranças da primeira edição do South Summit Brasil, que escolheu a Capital como primeira cidade fora da Espanha a receber uma versão integral da competição de startups, diz respeito à própria continuidade da relação entre a marca e a cidade. O sucesso dos três dias de painéis, mostras e reuniões facilita a permanência da iniciativa espanhola em solo gaúcho.

— O Rio Grande do Sul não é o maior ou o mais poderoso Estado do Brasil, mas é reconhecido como o mais inovador, com as melhores universidades. É isso que nos convenceu a vir para cá, porque resume a essência de como nascemos para promover inovação e empreendedorismo. Esse é o legado que buscamos deixar com uma aposta de longo prazo, porque não viemos para chegar hoje e ir embora amanhã. Viemos para ficar — garante a fundadora do South Summit, a espanhola Maria Benjumea.

Com pelo menos três edições garantidas pelo acordo inicial, a intenção geral é manter o encontro na Capital por um longo período — e, graças à excelente repercussão entre os participantes, repeti-lo nos armazéns do Cais Mauá. Embora os detalhes das próximas edições ainda precisem ser definidos entre organizadores, governos municipal, estadual e demais colaboradores, a direção do South Summit pretende que ocorram no mesmo local da estreia. Entre os demais legados apontados por especialistas está um novo nível de cooperação entre os setores público, privado e acadêmico.

— Mesmo se o evento não ocorresse, já teria deixado como resultado a articulação feita entre governo do Estado, prefeitura, empresários e sociedade civil para que fosse organizado. Esse foi um dos grandes sucessos, além do reencontro com a Orla, valorizando e mostrando que a cidade tem muito a oferecer — analisa o secretário-adjunto de Inovação e de Governança da Capital, Alexandre Borck.

O presidente da Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação no Rio Grande do Sul (Assespro-RS), Julio Ferst, acredita que o encontro deve ser visto como um marco divisor.

— O South Summit marca um novo momento para a nossa Capital e para o Estado, em termos de estímulo à inovação e ao empreendedorismo, a partir do qual não temos mais como retornar. Isso tem um significado em vários segmentos, que inclusive vai marcar as próximas administrações públicas da cidade e do Rio Grande do Sul. Ninguém mais vai administrar sem falar em inovação ou sem fazer eventos desse porte — aposta Ferst.

O prefeito da Capital, Sebastião Melo, por exemplo, aproveitou a oportunidade para anunciar um projeto destinado a eliminar o uso do papel nas repartições municipais, e participou da formalização da chamada “Tech Road” — parceria com Caxias do Sul, Florianópolis (SC), Joinville (SC) e Curitiba (PR) para articular ações inovadoras e buscar investimentos de forma conjunta. Já o governo estadual lançou a Rede Startup RS, movimento que reúne entidades públicas, privadas e universidades para ajudar a desenvolver empresas de base digital.

Para o presidente da Associação Gaúcha de Startups, Bruno Bastos, o conjunto de ações “inicia uma nova jornada no que se refere ao ecossistema de inovação”. Ecossistema, um dos termos mais usados nos armazéns do cais, é o conjunto de entidades privadas, governamentais e acadêmicas, entre outras, que se unem para criar um ambiente de colaboração.

Para essa colaboração transformar pequenas startups em gigantes empresariais, também é importante contar com recursos. Para isso, o South Summit deixa ainda como herança uma maior facilidade para empreendedores gaúchos buscarem financiamentos. O evento reuniu investidores responsáveis por fundos que somam US$ 65 bilhões, que agora passam a olhar com mais atenção para o que se faz em solo gaúcho.

— Trouxemos jovens, startups, para ampliar os horizontes e perceberem que podem fazer mais, podem chegar a mercados internacionais. Eles ficam conhecendo as pessoas e se dão conta de que podem ter acesso aos grandes fundos de investimento. Isso gera um estímulo a todo o sistema de inovação de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul — sustenta o secretário de Inovação da Capital, Luiz Carlos Pinto.

Os legados do South Summit Brasil
Veja, na avaliação de gestores, empresários e especialistas consultados por GZH, algumas das principais heranças da primeira edição do encontro de inovação

Consolidação de um ambiente cooperativo

O South Summit Brasil só foi possível por uma rara união de esforços entre governos estadual e municipal, meio acadêmico e iniciativa privada trabalhando de forma coordenada com um foco comum. A reforma dos três armazéns que receberam o evento, por exemplo, saiu graças uma parceria do poder público com 22 empresas que arcaram com os custos do projeto e do trabalho de recuperação de itens como telhados, portões, calhas e fiação elétrica a um custo superior a R$ 1,6 milhão.

— A articulação entre governo estadual, prefeitura, universidades com seus parques tecnológicos e os empresários mostra que estamos mudando a mentalidade do nosso ecossistema. O South Summit é o coroamento disso — avalia o secretário municipal de Inovação e um dos coordenadores do Pacto Alegre, Luiz Carlos Pinto.

Autoridades e empreendedores avaliam que, daqui para frente, demonstrado o sucesso dessa forma de trabalhar, será muito mais fácil reproduzir esse tipo de ação coordenada para realizar outras atividades de interesse da sociedade gaúcha.

Impulso à inovação e ao empreendedorismo

Para grande parte dos participantes do evento realizado na Capital, uma de suas principais heranças será imaterial: o estímulo a uma forma de pensar que valoriza a busca por inovação em todas as áreas, seja no setor público ou privado, com uso racional da tecnologia e fomento ao empreendedorismo.

— O principal legado é criar essa cultura de inovação e empreendedorismo, mostrar para essa juventude, a formuladores de políticas e empresários, a importância de mobilizar o ecossistema para a geração de empreendimentos, startups, e para criar oportunidades de trabalho para essa juventude que está vindo vibrante. O legado é gerar uma cultura favorável a tantas outras iniciativas que podem vir na área de inovação, empreendedorismo e tecnologia — observa o secretário estadual de Inovação, Ciência e Tecnologia, Alsones Balestrin.

Mudança de patamar na busca por investidores

Antes do South Summit, o Rio Grande do Sul já era reconhecido pela excelência de suas principais universidades, capazes de formar profissionais de nível mundial, e pelo dinamismo dos empreendedores locais. Um dos maiores obstáculos é disputar recursos de investimento com outras regiões do país, como São Paulo e Rio de janeiro. A realização do evento global em Porto Alegre, que atraiu a atenção de pelo menos 89 instituições de financiamento responsáveis por uma carteira de US$ 65 bilhões para aplicação na América Latina, auxilia a descentralizar os recursos e reforçar a posição das startups sulistas na disputa por financiamentos de grande porte.

— Vai contribuir estrategicamente para dar holofote global à cidade de Porto Alegre e para o Rio Grande do Sul como um ecossistema que está em processo de maturidade e tem, hoje, oportunidades muito significativas que podem ser desenvolvidas a partir de capital estrangeiro — afirma o diretor-executivo do Instituto Caldeira, Pedro Valério.

Novo ciclo de divulgação internacional

Nas últimas décadas, Porto Alegre já se mostrou ao mundo por meio de eventos de destaque como o Fórum Social Mundial no início dos anos 2000 ou a Copa do Mundo de 2014, mas, desde então, carecia de uma nova marca de relevância global. Ao atrair visitantes de meia centena de países, o encontro de inovação devolveu à Capital uma plataforma para se projetar internacionalmente, alavancar o turismo e favorecer o dinamismo econômico.
Como o Estado já tem pelo menos outras duas edições garantidas, e os espanhóis responsáveis pela marca sustentam que “vieram para ficar”, a tendência é de que essa divulgação global siga ganhando força ano a ano.

Digitalização do setor público

O estímulo à cultura de inovação e ao uso da tecnologia gerado desde os armazéns do Cais Mauá não se limitou ao setor privado.
A apresentação do trabalho das chamadas GovTechs (empresas destinadas a fornecer soluções tecnológicas para a gestão pública) em diferentes painéis também contribui para reforçar a necessidade de o setor governamental aprimorar o processo de digitalização. Sob o embalo do South Summit, por exemplo, o prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo, anunciou em um dos armazéns que a prefeitura estava dando início a um processo de eliminação do uso do papel na burocracia do município.

— Não houve consenso entre os secretários (sobre essa medida). Nesse caso, o prefeito decide. Vamos passar a limitar o uso e a aquisição de papel e de materiais relacionados, como impressoras. Isso começa pelo gabinete do prefeito e do vice e deve ter impacto progressivo no restante da administração pública — explicou a GZH.

Revalorização do Cais Mauá

Um evento destinado à inovação e à construção do futuro deverá deixar como uma de suas principais marcas a valorização de um dos espaços mais vinculados à história da Capital. Alvo de projetos de recuperação há mais de três décadas, sem que qualquer um deles tenha conseguido promover a reurbanização geral da área até o momento (uma nova tentativa segue em curso sob coordenação do governo estadual), o Cais Mauá se tornou uma das sensações do South Summit graças ao charme de seus armazéns — dos quais três receberam melhorias para receber os participantes — e à visão do Guaíba.

— O local é maravilhoso — resumiu um dos participantes, o vice-presidente da Visa do Brasil, Eduardo Abreu.

Atração de outros eventos estratégicos

O sucesso do encontro realizado nos armazéns do cais é visto como um novo cartão de visitas da Capital e do Estado capaz de facilitar a atração de feiras, congressos e encontros de médio e grande portes de áreas estratégicas como inovação, tecnologia e empreendedorismo. Para o presidente da Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação no Rio Grande do Sul (Assespro-RS), Julio Ferst, o excelente desempenho do South Summit deverá ter um efeito descentralizado capaz de favorecer diferentes regiões gaúchas, e não somente Porto Alegre.

— O legado do South Summit vai alavancar outros eventos deste nível, e não só em Porto Alegre como em outras regiões do Estado porque (muitas pessoas do Interior) vieram aqui visitar e estão levando essa semente de volta para suas regiões — avalia Ferst.

GAÚCHA ZH

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